terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ronaldo Lemos e Google

Apresentação de Ronaldo Lemos - Centro de Tecnologia e Sociedade - FGV/RJ, para Google!

http://www.youtube.com/watch?v=61pK9cgDOVY

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Lala Deheinzelin fala sobre Economia Criativa

Lala Deheinzelin, que é a primeira “Embaixatriz do Culturartes” (veja perfil ao lado do Portal no módulo Culturartes/Embaixador Culturartes) e também participará do Seminário Internacional de Economia Criativa, dias 10 e 11 de dezembro, no Centro de Convenções de Vitória, conversou com a Equipe Culturartes sobre o tema do Seminário e outras coisas mais. Confira.



CULTURARTES ­- Falar de Cultura e de que se é da área de Cultura tornou-se mais fácil no Brasil?

Lala - É mais fácil dizer que é da Economia Criativa do que da área da cultura. Porque todo mundo segue achando que cultura é coisa de maluquice. O nome Economia Criativa é muito interessante porque ele convida mais pessoas a participar do processo e deixa clara a transversalidade desse processo que está ligado a tudo que tem a ver com o cultural e o humano, por exemplo: Tem a ver com o direito, o comércio exterior, economia, turismo, publicidade, todas essas coisas, não é restrita aos artistas. Quando você fala em cultura as pessoas tendem a ouvir arte. Elas lembram de balé, música, teatro e não pensam em gastronomia, artesanato, parques temáticos ou em carnaval. O tema é muito amplo e ainda vai levar um tempo até mudarem essa imagem. Por isso, Economia Criativa é interessante, porque ela deixa claro que não se trata apenas do aspecto simbólico e se você pensa na cultura como uma função, ela fica ainda mais interessante, pois no meu entender, nada tem um potencial mais transformador do que a cultura tem. Você só consegue grandes transformações através da cultura.

CULTURARTES ­- Defina Economia Criativa.

Lala - Economia Criativa não é a invenção de nada novo, mas é colocar embaixo de um mesmo guarda-chuva todos os setores que trabalham com cultura e criatividade como matéria-prima. E a razão de juntar tudo isso é que uma vez constituídos como setor você consegue formar políticas públicas e ambientes adequados, como também fortalecer o setor. A Economia Criativa tem quatro áreas principais: um núcleo que vem das artes (teatro, música, artes visuais, artes plásticas, etc.); outro ligado à indústria de conteúdo (rádio, televisão, jornais, sites, etc.); tem um núcleo ligado ao serviço criativo (publicidade, design, moda, arquitetura, e outros); e tem um que abrange uma coisa enorme que é o entretenimento, lazer e a questão pública, onde entra toda a cultura popular, as festas de rua, as festas tradicionais, o artesanato e todas as manifestações que acontecem em espaços públicos. E nessa última parte tem uma grande diferença entre a gente e o hemisfério norte, porque isso lá não é tão forte. Eles tem uma indústria muito forte e uma atividade de cultura popular, de rua, que não é. E aqui no Brasil a cultura popular é forte.

CULTURARTES ­- O Pontão Culturartes, entre outras metas, busca a integração e articulação entre os setores da Cultura, do Turismo e do Terceiro Setor. Você acredita que ele possa contribuir com o desenvolvimento sustentável e humano proposto pela Economia Criativa?

Lala - Genial e importantíssimo. Com certeza. Tudo que está ligado a lazer e a tempo livre é o que mais tende a crescer. Eu acho que não existe turismo que não seja criativo. Porque turismo é a economia da experiência, porque é uma economia que é movida por aquilo que você vive e tem um caráter cultural. Você vai a algum lugar e tem um tipo de vivência e essa vivência depende da cultura do lugar que você está. E o turismo tende a ser ainda mais cultural, porque existe todo um campo novo que é muito divertido que é o turismo criativo, onde você não é passivo, mas ativo. Você pode viajar e aprender a fazer o artesanato do lugar. Pode ir à Bahia e aprender a convivência dos terreiros de candomblé. Você pode vir ao Espírito Santo e aprender como é a Cultura Pomerana. As pessoas querem cada vez mais isto: viver a cultura do lugar. Em relação ao Terceiro Setor é de onde surgem as experiências mais interessantes, tanto em termos de linguagem quanto em de forma de gestão inovadora. Os exemplos que estamos trazendo para o Seminário Internacional de Economia Criativa são os Doutores da Alegria, da Festa Literária de Parati, tudo vem daí, interface entre Terceiro Setor e criatividade. E o que gera daí é genial e também o que distingue o Brasil de outros lugares. O Reino Unido é que tem as experiências mais pioneiras em Indústria Criativa, mas em Economia Criativa para o desenvolvimento - que e é isso que está mais focado nessas coisas que tem interface com a Economia Solidária, que são originárias do Terceiro Setor, mesmo que sejam pequenas empresas, mas que tenham um caráter de inovação - o Brasil que é a liderança. Outros países não têm a mesma diversidade de experiências interessantes que nós temos.

CULTURARTES ­- Como você vê a participação dos governos municipais, estaduais e federal na discussão sobre Economia Criativa?

Lala - Esse é o nosso grande problema. A Economia Criativa tem um poder de transformação sem igual. Só que para dar certo tem que ter uma forma integrada entre iniciativa privada, setor público e os empreendedores criativos. O setor público em todas as esferas sofre de uma total falta de credibilidade, mas não sem motivos, porque como não existe a política de Estado, apenas a de governo, fica tudo ao sabor de quem está ali no momento. As coisas só começam e não continuam. As pessoas não podem ocupar os cargos sem conhecer o ofício. O setor público teria que funcionar com planos diretores que são soberanos, com pessoas com competência técnica e tenham uma forma de gestão democrática. Nós temos que brigar por isso, porque enquanto isso não mudar, não tem como, fica tudo impossível.

CULTURARTES ­- Como você analisa o Espírito Santo nesse contexto?

Lala - Oportunidades inigualáveis. Porque o Espírito Santo tem uma diversidade cultural e natural incríveis. Um tamanho manejável, um Estado rico, culto, com 78 municípios de fácil acesso e comunicação boa, então ele tem condições muito propícias. O que precisa é uma articulação entre os três setores.

CULTURARTES ­- Quais seriam os passos para fortalecer essa “Economia do Intangível”?

Lala - A primeira coisa é reconhecer o quanto o intangível é importante. Então precisa ter um trabalho com as próprias pessoas da área criativa que não conhecem o poder da área. Depois as lideranças empresariais e governamentais sobre o papel da cultura e da criatividade para saberem do que estamos falando. Isso é preparar terreno e tem que ser difundido. O próximo passo é desenvolver novos mecanismos de mensuração que sirvam de impacto, porque a nossa única medida é o econômico. Mas só que tudo que tem a ver com o intangível e o cultural é muito dimensional. Você tem a dimensão econômica, a social, a ambiental e a simbólica, mas só medimos a econômica. É como se medíssemos litro com régua, nunca vamos ter o tamanho real. Os economistas deviam criar meios para medir o intangível. E como o medimos? Por exemplo, não vendo o tamanho, mas o impacto dele. Para trabalhar a Economia Criativa é preciso sempre pensar nessas quatro dimensões.

CULTURARTES ­- Como você vê o Plano Nacional de Cultura.

Lala - Fundamental para que tenhamos política de Estado e não de governo. Em teoria é genial, essa coisa de fazer conferências municipais, estaduais, para fazer a grande conferência, desenhar o plano nacional, é tudo ótimo. A questão é a concretização disso. Do ponto de vista conceitual o trabalho do Ministério da Cultura é maravilhoso. O programa Cultura Viva é genial, o grande problema do ministério é operacional. O conceito é maior do que a máquina.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

As regras do jogo estão aí. É hora de fazer acontecer.

por Edmilson Baggio Vieira

Este texto é fruto da participação da Oficina Virtual de Economia da Cultura, e tem o propósito ser uma modesta contribuição para o Seminário Internacional de Diversidade Cultural.

Há uma consciência entre os debatedores de que, neste momento, mais importante do que contextualizar, conceituar e definir o que fazer, estamos na fase de definir como fazer o que tem que ser feito. Mesmo assim, aproveitarei a oportunidade para manifestar a minha visão sobre o assunto e o contexto, dizendo uma série de obviedades e assumindo o ônus de ser repetitivo para os mais inseridos no assunto. Isto é para que as propostas pragmáticas ao final deste texto, possam ser julgadas à luz de minha visão sobre o mundo atual.

“A convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade Cultural é um marco histórico e tem importância proporcional àquela que teve e tem a declaração universal dos direitos humanos”. Esta mensagem trazida à nossa oficina pelos integrantes dos representantes do ministério da cultura do Brasil como sendo a manifestação do Ministro Gilberto Gil, sintetiza a importância e relevância da convenção.

Preservar nossa cultura é preservar o que somos como indivíduos e como seres coletivos. É um sistema de crenças, valores e hábitos que nos faz ter identidade, seja ela diversa ou igual à de outros indivíduos e grupos do lugar em que habitamos. Senão, o que é ser judeu ou árabe, curdo, caiapó, kaigangue, tupinambá, inca ou brasileiro?

“Ser brasileiro” é, acima de tudo, uma questão cultural e como tal extrapola os limites de fronteiras que politicamente convencionamos existirem. Se é que existe um “ser brasileiro” - É mais provável que este “ser” ainda esteja em formação, fruto da fusão inconclusa de vários povos, línguas e culturas -, o que, em virtude de nossa história particular, faz a questão da diversidade cultural ganhar importância ainda maior para nosso país, pois somos um dos mais ricos locais da Terra em quantidade de diversidade cultural, e somos capazes de continuar recebendo de braços abertos, permanentemente, influências externas, criando um moto continuum de transformação e renovação, ao mesmo tempo em que, sem nenhum medo de errar, preservamos, por obra de sermos gigantes pela própria natureza, as únicas culturas que ainda não se tornaram iguais a um padrão cultural que se estabeleceu no mundo globalizado: a cultura de consumo – um consumo que só tardiamente percebemos ser capaz de nos levar à autodestruição.

Quando falo de uma cultura não igual, refiro-me aos índios não contatados da Amazônia. As últimas 42 tribos do mundo que ainda não foram “catequizadas” para esta cultura de submeter a natureza à sua vontade e consumi-la à exaustão. Estes povos que habitam ali, e graças aos quais, aquela floresta ainda existe, são povos “excluídos”, graças à imensidão da Amazônia e por vontade própria, da lógica perversa do consumo e troca de mercadorias que gera ao mesmo tempo riqueza e pobreza, fartura e carência. Ali, eles não sabem o que é riqueza, nem o que é carência, e vivem à margem desta mentalidade uníssona de que o homem é criatura que deve submeter a natureza à fim de servir-se dela com produtos para seu consumo.
Nós, os povos que debatem e lêem convenções internacionais e este artigo, sabemos muito pouco ou quase nada sobre como conviver com a natureza sem transformá-la em lixo, seja reciclável ou não. Nós já consumimos quase todo o petróleo que a Terra foi capaz de criar, praticamente todo ouro, diamante e outros minérios, e tendemos a não ter mais minério de ferro e outros componentes da natureza num futuro próximo. Certamente encontraremos substitutos até melhores para nos servir, mas a natureza não encontrará. E como sabemos pouco de qual a real função destes elementos no equilíbrio do sistema natural, somos, portanto, incapazes de avaliar quais serão as conseqüências da extinção destes elementos para o equilíbrio da natureza, e seus impactos na vida humana. Nossa melhor esperança agora é aprender como conviver com a natureza sendo capaz de preservá-la ao invés de subjugá-la. Saber, se não exclusivo, muito mais evidente e concreto no modo de vida destes índios não contatados da Amazônia brasileira.

Não imagino que possamos voltar a viver pelados pintados de verde num eterno domingo no paraíso da “pindorama” ou da Terra brasilis pré-colombiana ou “pré-Cabral”. Nós não seríamos capazes de sobreviver na floresta sem GPS e celular, ou sem a chance de pegar um avião ou um automóvel e escapar para outro lugar quando os mosquitos se tornassem insuportáveis. Aprender com, não significa tornar-se um. Portanto, aprender com os índios, trata-se acima de tudo de respeitar e considerar que eles têm algo a nos ensinar. É, portanto, inverter a lógica do “eles têm muito a aprender, coitados” para a lógica do “o que vocês têm para nos ensinar?”. A questão de sobrevivência da espécie humana e da preservação deste saber exclusivo dos índios da Amazônia sul-americana é razão suficiente para que a UNESCO e todas as nações do mundo empenhem-se em criar ferramentas que sejam capazes de preservar esta cultura, pois ela é o nosso elo com um modo de vida viável que desconhecemos e destruímos até hoje por preconceito e arrogância.

No meu ponto de vista, a convenção objeto deste debate, seria realmente mais eficaz se tivesse a coragem de dizer: Todo aquele que tenta catequizar através do uso do poder ou coação, outro povo para a sua forma de ver e crer, deveria ser condenado por um crime contra a humanidade. Já sabemos - como a história da América demonstra -, que tentar converter o índio para nosso modo de vida, é condená-lo à extinção e a um jogo desigual. Vale relembrar que se a “Utopia” escrita por Tomas Morus em 1516, foi fruto de um relato real da forma de vida dos índios brasileiros da época, esta obra pecou por descaracterizar a forma de vida destes índios quando o autor alterou o sistema de crenças deste povo para aquele que ele tinha, transformando um modo de vida real e, portanto possível, numa forma de vida quase impossível, transformando a palavra utopia em sinônimo de impossibilidade de se viver uma vida ideal. Este livro é só um dos muitos que mostraram o encantamento com aquela forma “exótica” de viver, mas a consideraram inferior. E, quantos de nós até hoje ainda adota este modelo mental de ver nossa forma de viver superior àquela destas tribos. E para mim, a razão pela qual considero a convenção um marco histórico, reside principalmente, no fato desta ser nossa última chance de não repetirmos os mesmos erros que cometemos no passado - O erro de “educar” os povos indígenas para o nosso modo “neurótico” de vida. Neurótico, pois, ao nos desassociarmos do que somos: Seres naturais. Tornamos-nos desintegrados da natureza e, portanto, desintegrados de nossa própria essência. Com que outros povos poderemos aprender a conviver com a natureza durante 12 ou 20 mil anos sem consumi-la até a extinção? Já que não sabemos como viver de forma leve e naturalmente integrada com a natureza, temos, para a nossa própria preservação, a obrigação de preservar quem sabe.

Existem outras culturas “frágeis” e também importantes que precisam ser preservadas, e a perda de cada uma delas pode significar perder a chance de se preservar algum conhecimento importante para nosso futuro.

Por outro lado, para nós, que vivemos à margem da natureza, integrados à sociedade de consumo e que, por isto, dependemos de trocas de bens e serviços realizadas com outros seres humanos para sobreviver, não há outra forma viável de sobrevivência, senão aquela que considera o produto de nossa criação uma mercadoria. E neste ambiente, torna-se imperioso criar leis, princípios e convenções para regularizar a troca entre os povos. A cultura, neste contexto, não pode deixar de ser um produto capaz de ter valor comercializável, pois, se o pajé cria a música que será cantada pela tribo sem esperar nada em troca, nós, com raríssimas exceções, dependemos da recompensa financeira resultante de nossa obra para sobrevivermos e podermos continuar a criar. Assim, a economia da cultura é um conceito que ganha relevância, na medida em que pode servir como propulsor da viabilização da economia da criação e da indústria da cultura, fazendo com que possamos tornar mais eficaz nossa lógica produtiva de geração de renda e emprego, sem a qual não teremos como criar um mundo “melhor e mais justo”. É preciso fazer com que governo e sociedade se recordem como a cultura é um “negócio” com grande potencial de geração desta renda e de riquezas. E para isto, o exemplo do reino unido é suficiente, pois lá, como apresentado na entrevista de Raul Juste Lores da Folha de S. Paulo - o ex-ministro da cultura de Blair conseguiu comprovar que cultura rende muito valor monetário para a economia. No Reino Unido, de acordo com a entrevista, a cultura movimenta 7% do PIB e em Londres, a chamada indústria criativa (de moda a galerias de arte, de entretenimento a arquitetura e design) já é a segunda mais importante, após o mercado financeiro. Apesar de haver outros bons exemplos, nada mais é preciso dizer, pois se lá ela é a segunda, aqui ela pode ser a primeira, a sexta ou décima indústria. O relevante, neste momento, é termos a consciência de que é preciso mensurar o que representa a economia da cultura em nossa sociedade, seja um país, um estado, um município ou uma comunidade, e qual o seu potencial econômico, certos de que ela nos fará progredir economicamente e poderá ser um instrumento eficaz para inserção positiva de vários excluídos ao sistema. Fenômeno que, à revelia dos sistemas formais, já se opera nas comunidades marginalizadas das grandes cidades com o surgimento de guetos criativos que, utilizando estratégias comerciais não formais, como venda de cd´s em camelôs, têm se viabilizado economicamente. Assumir que os bens e serviços culturais são mercadorias é fazer valer mais uma atividade que precisa ser tornada tangível para permitir que os agentes criadores, distribuidores e divulgadores da indústria criativa tenham condições e motivações para continuarem se dedicando a criar e a produzir com mais intensidade. Precisamos ser, enquanto agentes, capazes de sermos pragmáticos e empreendedores a fim de transformar a indústria criativa em algo que seja percebido como benéfico para o indivíduo e para a sociedade, e isto, por si só, já será suficiente para promover o desenvolvimento desta economia e para a proliferação criativa.

Peguemos como exemplo a indústria fonográfica no Brasil: Quando tornar-se cantor e compositor tornou-se financeiramente recompensador, proliferaram músicos, cantores e compositores profissionais e desenvolveram-se uma gama de produtos em torno da música, como os carnavais fora de época pelo país e até mesmo a sua internacionalização com sua exportação para Barcelona e Miami. Expansão que é devida a atuação de profissionais empenhados em empreender esta atividade cultural e fazê-la tornar-se lucrativa. Não se trata aqui de julgar que tipo de cultura é melhor e deve ser incentivada, pois isto, a diversidade cultural, é um dos objetivos primordiais do nosso debate e, sendo assim, toda forma de expressão artística e cultural deve ser respeitada, valorizada e transformada em bom negócio. Fazer a festa e música é da natureza do seres nascidos nestas Terras tropicais, que desde 1541 vem sendo chamada de Brasil. E graças a esta característica nata, tradições como o Boi Bumba ou a dança da chuva, entre outras, vêm sendo preservadas e promovidas. O fato é que a busca por renda e geração de lucro intensificou a produção musical, e, normalmente, a quantidade trás também, em seu esteio, qualidade, mesmo que esta fique ofuscada pela quantidade de produções apenas comerciais que, por isto mesmo, tendem a ter vida curta. O que é “bom” dura.

A história conhecida da humanidade demonstra que os estados diretivos que assumiram a promoção da sua cultura se misturam com a história de grandes líderes de povos, cujos nomes chegaram até nossos dias. Foram eles que conseguiram fazer suas nações serem fortes, graças principalmente, ao fortalecimento de suas próprias culturas. Seja no Egito, na América, na África, na Ásia ou na Europa, personagens como Moisés, Davi, Salomão, Ciro da Pérsia, Alexandre da Macedônia e César Augustus têm em comum o fato de que sabiam dar valor e empreender projetos culturais apoiados ou empreendidos diretamente por eles. Projetos que tinham o propósito de fazer seus povos e suas culturas sobreviverem, superarem às outras e se perpetuarem.

Estabeleceram para tal, um conjunto de regras e valores e um sistema de incentivo à criação de obras cujo valor deveria perpetuar-se.

Poderia citar exemplos mais recentes da história, que nos trariam maior ou menor preconceito do que estes citados, e seria até absurdo deixar de citar o exemplo do rei Francisco I da França, “o criador” da lei dos direitos autorais e que foi capaz de trazer para a França grandes criadores de sua época, como o iltaliano Leonardo da Vinci, que junto com outros grandes gênios da renascença fizeram a França, atrasada na época em relação à Espanha, Alemanha, Holanda, Portugal, Florença, Veneza e Gênova, nascer como nação expoente em termos culturais. Este caso demonstra como a lei entrópica da física que explica como um sistema aberto que recebe de fora energia positiva tende a tornar-se mais evoluído. E, desde então, a França, que era fechada e atrasada, tornou-se o berço de grandes inovações e criações intelectuais e culturais. Mas, nenhum exemplo é mais evidente do que o de César Otaviano Augustus, que teve como braço direito, um eficaz articulador político que com sua estratégia de apoiar e patrocinar artistas e escritores como Virgílio, Propertius e Horácio, ajudou não só a ascensão de Otaviano, a superação do caos da guerra civil e a consolidação do império romano, como contribuiu para deixar um legado de valores e princípios legais que norteiam, até hoje, o modo de vida do mundo ocidental. Tão forte esta atuação que Caio Mecenas empresta seu nome à pratica de se apoiar iniciativas artísticas e culturais – o mecenato.

Tenham sido autoritários ou democráticos, estes personagens são da história que remonta a mais de dois mil. Nos dias de hoje, não acredito que haja um só líder mundial e empresarial que desconsidere a importância de ter uma cultura forte e influente e que isto é tão benéfico para seu país e sua empresa quanto ter bons produtos e um eficaz sistema de comercialização destes.

Ocorre que séculos atrás, a conquista territorial era condição necessária para que uma cultura se expandisse, e hoje, com uma ou duas exceções, nenhum líder consciente tenta expandir sua cultura e seu campo de influência usando o caro e antipático, pois desumano, recurso da guerra para transformar a cultura alheia. Hoje existem os meios de comunicação e a mídia, o cinema, os livros, a publicidade e a expansão de mercado de produtos que levam com eles os hábitos de consumo e os “modos vivendis” de determinado povo até outro.

Como na história da cultura também prevalece a “lei de Darwin” que o mais forte e adaptado, e não necessariamente o melhor, sempre vence. Criar um conjunto de valores e regras que protegem as culturas menos “fortes” é fundamental. O mundo sofre desde os seus primórdios o efeito de uma pressão dos mais fortes tentando, naturalmente, ou artificialmente, impor sua cultura aos mais fracos, o que ganhou dimensões maiores com o crescimento do comércio internacional, da comunicação e dos transportes, gerando conflitos de valores tantos financeiros quanto culturais. Daí a importância desta convenção, objeto de nosso debate.

Em oposição à idéia de um estado forte e diretivo estaria a concepção de um mundo liberal ou anárquico. E, neste contexto, um artista está sempre em contradição, tentando expressar-se de forma independente e autônoma ao mesmo tempo em que busca um mecenato que o livre da necessidade de ter que agradar ao mercado. Um mercado que nem sempre é capaz de, no seu entender, “avaliar”, no momento presente, a vanguarda e a sua “visão privilegiada” do mundo e da forma de se expressar.

Encontrar o ponto de equilíbrio entre diretividade do estado e liberalidade, e entre autonomia e conquista de mercado ou mecenato, é o desafio de indivíduos, da indústria da cultura e do estado. Isto só será possível com atuação consciente e pragmática que busque a evolução dos modelos atuais praticados no país.

Minha conclusão, portanto, é que a Economia da cultura, a indústria da cultura e a definição de bens e serviços culturais, como colocadas na convenção são coerentes e oportunas, pois se trata de valorizar, no sentido de definir valor tangível, o fruto da atividade de criação, produção e distribuição de produtos artísticos e culturais. A viabilização do lucro fará certamente com estas “criações” se proliferem e, consequentemente, estas manifestações culturais se perpetuem, mesmo que transformadas. Está explicito também na convenção que existem atividades culturais que não são atividades econômicas e isto é bem apropriado.

A convenção elaborada é a convenção possível, fruto de exaustivos debates entre os representantes das nações que a elaboraram. E não há como discordar que esta convenção trás benefícios para os que possuem uma cultura mais vulnerável. Há uma tendência de ser melhor com ela do que sem ela.

Considero que é mais importante agora, como povo e nação, partirmos para a ação, definindo um conjunto de estratégias e planos de ação para que possamos jogar o jogo de acordo com estas novas regras estabelecidas. Um jogo que já está no segundo tempo e cujo placar é muito desfavorável para os países em desenvolvimento, que já foram tantas vezes “colonizados” e que ainda hoje não têm um time organizado, nem tampouco uma estratégia de jogo.

Urge que, sem esquecermos que existem questões conceituais e ideológicas importantes neste debate, passemos para a ação. Uma ação que faça com que nossa sociedade desenvolva sua “economia cultural”, a fim de não ver seus valores e tradições serem extintos em conseqüência da entrada de outros valores e tradições mais “fortes”. Não se trata de impedir a entrada do que vem de fora. Isto não combina com nossa história e todo sistema fechado, ensina a lei da física, tende a se extinguir. Trata-se sim, de fortalecer nossa capacidade de criar, produzir e comercializar nossas atividades, bens e serviços culturais e criativos com força e poder suficiente a fazer frente, de forma positiva e interativa, ao que vem de fora. E, para que a cultura se torne uma indústria promissora em nossa cidade, estado, país ou continente, é preciso que sejamos capazes de:

1. Ter um estado organizado, comprometido e empenhado com recursos humanos e financeiros para “estimular um ambiente favorável ao desenvolvimento de empresas e criadores, para que o mercado possa ampliar-se e realizar seu potencial, não apenas de auto-sustentabilidade, mas de ganhos sociais (emprego, renda, inclusão ao consumo de bens culturais)”. (1)
2. Articular a iniciativa público-privada (empresarial e individual) organizando cluster´s e OCIP´s e fortalecendo os já existentes em todos os níveis de atuação: latino-americano, federal, estadual e municipal.
3. Evoluir a forma de incentivo dada pela lei Rouanet, que hoje faz com que empresas privadas se utilizem de recursos públicos para direcionar estes recursos para a sua autopromoção e para decidir o que é boa obra artística e cultural. Minha sugestão é que se crie um conselho nacional onde haja a participação de representantes do governo, da iniciativa privada e da sociedade organizada. Ou então, que a lei seja alterada para haver um mínimo de investimento privado real das empresas patrocinadoras para que o investimento púbico seja potencializado.
4. Tornar mais célere o estudo de dimensionamento atual da economia cultural do país, do estado e dos municípios para que estes estudos possam dar a real dimensão e noção de realidade desta indústria em nosso contexto, e ao mesmo tempo, dar início aos debates sobre o que realmente deve ser considerado como componentes da economia cultural.
5. Incentivar a proliferação de pesquisas acadêmicas com bolsas para mestrado e doutorado em economia da cultura e economia criativa.
6. Ter no Ministério da Cultura, se é que não existe, um secretário especial para tratar dos intercâmbios culturais como o promovido pelo governo britânico e articular a criação de outros intercâmbios com outros países.
7. Elaborar um plano estratégico coordenado pelo Ministério da Cultura com vistas a desenvolver um plano de ação para o desenvolvimento da Indústria da Cultura no País. (Talvez exista e eu não conheça. Se for este o caso, então é preciso divulgá-lo).
8. Por último e não menos importante, articular junto com a Funai, um projeto de preservação dos povos indígenas da América, principalmente os não contatados.

A conclusão é que é preciso arregaçar as mangas e trabalhar muito desde ontem, e temos muito a preservar e a promover. É hora de fazer acontecer, já que as regras do jogo estão estabelecidas.


(1) Mensagem do Ministro Gilberto Gil disponível no site do www.minc.gov.br

terça-feira, 12 de junho de 2007

O Centro Histórico de Salvador: economia cultural entre o local e o global

por Wagner Vinhas *

Estamos acostumados a citar a cultura como uma riqueza de um povo, uma teia de significados que orienta os valores e as crenças na (re)definição das identidades culturais e que são refletidas através do sentimento de pertencimento a uma comunidade. A cultura, neste sentido, se apresenta também como uma força política capaz de organizar um grupo social em torno de interesses mais ou menos comuns. A cultura, dessa forma, pode ser vista como um sistema interconectado e interdependente, o que George Yúdice denominou de ecologia cultural, com recursos renováveis e não renováveis.

Nesta perspectiva ecológica, com contribuições importantes nas últimas décadas para a nossa forma de perceber os sistemas naturais e sociais, existe um debate que busca rever o conceito de riqueza. Segundo Elaine Bernard, diretora da Trade Union Program de Havard, a natureza é vista como riqueza apenas quando apropriada para fins econômicos privados. No entanto, nesta perspectiva de repensar o conceito, os recursos naturais por si mesmos são riquezas de toda a vida sobre o planeta. A água que corre nos rios, a diversidade biológica nas matas e florestas, entre tantos outros, não possuem valor apenas quando transformados em mercadoria pelo capitalismo. A riqueza contida na natureza não está restrita à lógica de um sistema de produção, porque o seu valor está ligado à produção de toda a vida sobre o planeta. Neste sentido, a cultura enquanto uma ecologia cultural e com inter-relações na produção da vida dos grupos sociais e étnicos, precisa ser pensada a partir desta mesma noção de riqueza, através da sua importância para a vida em sociedade e não apenas como uma mercadoria a ser comercializada.

Na produção de bens culturais, encontramos artistas, produtores, empresas etc., compondo a cadeia produtiva de uma cidade, estado, região ou nação. No entanto, existem problemas na retro-alimentação desse sistema que funciona como uma cadeia produtiva, principalmente, quanto se trata do retorno de conhecimentos, recursos financeiros ou bens acabados aos chamados artistas populares. A população que está nas feiras ou nas ruas, produzindo o que denominamos por cultura espontânea ou popular, também participa de modo periférico na produção dos bens sociais, mesmo que seja um importante elemento na (re)produção da cultura nacional.

Nas últimas décadas, particularmente, a partir da década de 1950, ocorre um forte movimento em torno da estruturação de bens simbólicos e culturais. Inserido nesta dinâmica da produção da economia global, temos a cidade de Salvador, representada principalmente pelo seu Centro Histórico. A configuração atual do Centro Histórico de Salvador (CHS) pode ser pensada em termos de preservação arquitetônica e encenação das práticas culturais, como também, através da dinâmica cultural oculta nos recantos periféricos do CHS. O efêmero ocupa os espaços reinventados pelas políticas culturais e que continuamente modificam “o local da cultura baiana” para atender a agenda de festividades. As manifestações que participam da reinvenção constante do CHS não conseguem abarcar a diversidade existente na cidade de Salvador. A negritude, “vivamente” presente no CHS através das encenações e espetacularizações, ocupa nos demais bairros da cidade os locais periféricos e com expressiva concentração da população negra. Essa visível reclusão do negro baiano na periferia de Salvador se reflete na dinâmica destes bairros e distantes dos circuitos culturais.

Os últimos dados revelam que o soteropolitano freqüenta pouco o CHS para estar com amigos ou familiares. Os dados não representam fatores isolados e sim a pouca atenção dada por parte do poder público no que se refere à relação dos habitantes com o espaço social, negligenciado inclusive o seu potencial educativo. Os inúmeros aparelhos do CHS mantêm pouca ou nenhuma relação com a população que ali reside ou freqüenta. As instituições como Museu Casa do Benin, Fundação Jorge Amado, Fundação Gregório de Mattos, entre tantos outros espaços, poderiam ampliar suas atividades às camadas populares, promovendo debates, abrindo seus acervos, revivendo a cultura baiana através da diversidade de meios e que apenas estão disponíveis para usufruto das camadas privilegiadas da cidade. O que nas últimas décadas permitiu ao CHS uma maior visibilidade no cenário nacional e internacional foi o legado construído pelas práticas culturais que surgiram através dos praticantes de capoeira, afóxes, repentistas, blocos carnavalescos, literatura de cordel, entre tantos outros. Contudo, o modelo adotado acabou sufocando essa diversidade, favorecendo apenas uma pequena representação dessa totalidade. Os mestres de capoeira, por exemplo, conseguem manter a prática no CHS com pouco ou nenhum apoio das políticas culturais, mesmo sendo a capoeira hoje responsável por uma maior difusão da Bahia em âmbito nacional e internacional. Mesmo sem políticas que favoreçam a prática, a capoeira sobrevive em condições adversas não apenas no CHS, demonstrando sua importância para a dinâmica local e independente da sua inclusão como bem de consumo. Neste sentido, as práticas culturais são uma riqueza para uma parcela da população e que se reconhece dentro de uma diversidade de práticas existentes. A prática da capoeira fala muito sobre o modo de ensinar e de aprender (educação), dos valores e das crenças e da forma de estabelecer relações sociais entre seus praticantes.

Pensar a Economia Cultural, numa cidade com as potencialidades de Salvador, não basta que seja em termos de mercantilização da cultura. É necessário estabelecer estratégias para manter viva a produção dos bens simbólicos e culturais. Neste sentido, a presença das camadas populares parece ser fundamental. É preciso pensar políticas que possam efetivamente democratizar, preservar e alimentar as dinâmicas culturais da cidade, devolvendo conhecimentos, trocando experiências, redistribuindo a renda, para que o sistema não morra de asfixia em algum ponto estrangulado. Nos últimos anos, a visitação e a permanência do turista na cidade caiu rapidamente, o que parece ser um reflexo do modelo adotado para pensar o espaço social e as manifestações culturais, inclusive nos demais espaços sociais da cidade. A elitização, aliada a mercantilização do CHS, demonstra que a ausência da espontaneidade popular é danosa a (re)produção das manifestações culturais, sugerindo que a relação da comunidade com o espaço é um fator de (re)criação do próprio espaço.

O professor Bruno César Cavalcante, da Universidade Federal de Alagoas, em palestra proferida no III ENECULT, ocorrido neste ano em Salvador, afirma que um dos grandes desafios para as políticas de diversidade cultural é a democratização do conhecimento ou retorno às camadas populares de um conhecimento que temos nos apropriado de formas diversas. Conforme Cavalcanti, diferente dos artesões europeus, por exemplo, no Brasil a produção artesanal ocorre sem que os conhecimentos necessários a produção, distribuição e acesso ao mercado sejam de fácil acesso. A ausência da participação do artesão na produção de conhecimentos não permite que ele elabore de modo adequado um conjunto de saberes para lidar com o mercado.

É um desafio para a Economia Cultural, pensada como um sistema vivo de inter-relações entre pessoas, estilos, infra-estrutura, bens etc., ampliar o acesso a todos os indivíduos que participam da produção cultural no seu sentido mais amplo. A Declaração da Diversidade Cultural da Unesco ao afirmar que a diversidade cultural como fator de desenvolvimento, não envolve apenas o aspecto econômico, mas existencial, intelectual, afetivo, moral e espiritual, nos permite avançar no sentido de propor estratégias através de uma perspectiva sistêmica, ou seja, através de dimensões interconectadas e interdependentes onde a busca do equilíbrio não está em um único aspecto, mas nas conexões que ligam os seus diversos.

(*) Wagner Vinhas é cientista social com pesquisa em andamento no Centro Histórico de Salvador.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Novos modelos de negócios emergem impulsionado pelas novas tecnologias

Agência Carta Maior - Carlos Minuano*

Às margens da grande indústria fonográfica, que encolhe vertiginosamente, o cenário musical paraense exibe uma força produtiva que chama a atenção: artistas trabalhando sem cessar e uma quantidade enorme de CDs vendidos nas ruas, a preços acessíveis para a população. É a reinvenção do produto cultural nas periferias, um prodígio que ganha contornos cada vez mais robustos. Em Belém do Pará, o tecnobrega, ignorado pelo eixo mainstream Rio-São Paulo, movimenta milhões de reais e emprega milhares de pessoas.

Enquanto a Sony–BMG, com apenas 52 artistas contratados, lançou em 2006, ínfimos 18 CDs, no mesmo período, apenas o tecnobrega colocou em circulação cerca de 400 discos, além de movimentar, mensalmente, mais de R$ 6 milhões. Entre as bandas, a maioria nunca teve contrato com uma gravadora. Ainda assim, avaliam como positiva a venda de seus CDs por vendedores de rua. Claro, afinal, cumprem o papel vital de divulgar suas músicas. Do funk carioca ao cinema independente nigeriano, modelos semelhantes espalham-se pelo mundo, colocando em xeque velhos padrões.

Essas iniciativas ganharam o nome “mercado aberto”, ou “open business”. Uma fórmula criativa que equaciona informalidade com formalidade, cujas características são a sustentabilidade econômica, flexibilização dos direitos de propriedade intelectual, horizontalização da cadeia produtiva e ampliação do acesso à cultura, tudo isso impulsionado pela contribuição fundamental das novas tecnologias. Para compreender como se organiza esse novo formato, a Fundação Getulio Vargas - FGV, em parceria com a Fipe e o site Overmundo, encabeçado pelo antropólogo Hermano Vianna, foi até o lugar onde emerge esse fenômeno, as periferias.

O levantamento mapeou mais de 20 casos de “Open Business” no Brasil, nas áreas de moda, literatura, mídia, cinema, software, outros 20 na América Latina [Argentina, México e Colômbia], e ainda a indústria cinematográfica nigeriana. “O projeto buscou, ao longo de um ano buscar dados sobre esse universo, até então, desconhecido e identificar inovações que eles podem trazer”, conta Oona de Castro, da FGV, uma das coordenadoras do estudo. “Na Argentina, por exemplo, a tecnologia acabou com a necessidade de intermediação, gerando autonomia para os artistas”, acrescenta.

Na África Ocidental, a Nigéria, é outra amostra da robustez dos negócios abertos. O país, onde até pouco tempo não havia sequer salas de exibição, ostenta hoje a terceira maior indústria de cinema do planeta. “Apesar das restrições de acesso aos avanços tecnológicos, a pesquisa mostra que, nesses países em desenvolvimento, as populações vêm se apropriando, cada vez mais, dessas ferramentas”, observa a coordenadora da FGV. Ignoradas pela grande indústria cultural, dão de ombros para os padrões tradicionais de negócios, com isso tornam-se territórios férteis para novas formas de criação, produção e distribuição.

“Seja marginal, seja herói”
A cultura digital e os direitos autorais abertos tornaram-se a mola propulsora de uma revolução que a periferia parece não ter problemas em compreender. “Tipos diferenciados de licença, como o Creative Commons [que permite a um artista liberar parte de seus direitos autorais], são novas formas de negócios, essas comunidades já entenderam isso”, ressalta Cláudio Prado, coordenador de políticas digitais do MinC. Para ele, a questão da legalidade, ou da ilegalidade, é transitória. “É preciso transgressão para haver avanço, no mundo digital as coisas acontecem antes que o sistema capitalista as enxergue”.

O processo de gestação desses novos formatos, para umas das principais vozes da periferia paulistana, o escritor Ferréz, está relacionado com as inúmeras dificuldades enfrentadas pelas comunidades das periferias. “Conheço gente que trabalha muito, mas não consegue apoio, então faz com os próprios recursos”. Para ele, a opção que resta a essa usina cultural marginalizada é criar seus próprios padrões. Como diria o artista plástico Hélio Oiticica: “seja marginal, seja herói”.

(*)Carlos Minuano é repórter do 100canais - núcleo de jornalismo cultural idependente, parceiro de Carta Maior

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Cultura X Pobreza

A criatividade é capaz de movimentar a economia, reduzir desigualdades e fortalecer a auto-estima das pessoas

Eliana Giannella Simonetti*


Uma forma de retratar o planeta, hoje, é a seguinte: em cerca de 200 países vivem cinco mil grupos étnicos – a maior parte deles minoritários. Há outra: Hong Kong, ilha de 6,5 milhões de habitantes, produz anualmente 171 bilhões de dólares. Na Tanzânia, onde vivem 32 milhões de pessoas, a produção é infinitamente menor: 6,9 bilhões. A Suécia tem mais ou menos a mesma área arável de Cuba, recursos naturais semelhantes, clima mais ingrato e menos gente. Mas o PIB sueco é onze vezes maior do que o cubano. A diferença em termos de renda per capita entre uma das mais ricas nações industriais do mundo, a Suíça, e um dos mais pobres países não industriais, Moçambique, é de cerca de 500 dólares para 1.

Não há receita alguma capaz de resolver tamanha desigualdade com facilidade e em prazo curto. Cinqüenta estudiosos de todas as especialidades (entre eles o historiador David Landes e os economistas Jeffrey Sachs e Francis Fukuyama) reuniram-se num debate em busca das razões desse problema na universidade americana Harvard. Concluíram que, além dos motivos conhecidos, como escassez de riquezas naturais, governos com administrações desequilibradas e falta de oportunidades de negócios, os países pobres sofrem por uma razão menos palpável: eles têm uma espécie de cultura da pobreza. "Mais do que qualquer dos fatores que influenciam o desenvolvimento dos países, a cultura é a principal explicação do por quê alguns se desenvolvem mais rápida e homogeneamente que outros", diz o economista Lawrence Harrison, professor em Harvard e autor do livro Subdesenvolvimento É um Estado de Espírito. A questão é como fazer para romper o dique entre nações ricas e pobres, porque de uma forma qualquer ele precisa ser rompido. "A paz e a prosperidade do planeta dependem do bem-estar de todos", diz David Landes, professor de história e economia política em Harvard e autor do livro A Riqueza e a Pobreza das Nações.

O Brasil investe 22% do PIB em programas sociais. É muito dinheiro, mas não resolve os problemas. Primeiro, porque grande parte dos recursos se perde no meio do caminho e não chega aos necessitados. Segundo, porque o assistencialismo não produz gente com mais iniciativa, mais criatividade, maior habilitação para o trabalho. O investimento em capital humano pode ser muito mais barato e gerar melhores resultados. E aí entra a economia da cultura. Roupas, enfeites, objetos de decoração, idiomas, ritmos e sons formam uma colcha de retalhos de valor intangível que vem adquirindo importância crescente com o aumento do comércio e das relações entre os povos. A questão, que só recentemente começou a chamar a atenção dos brasileiros, está em pauta nos países desenvolvidos há décadas. Como chega atrasado para a festa, o Brasil tem de se apressar, ou continuará sendo um grande exportador de produtos agrícolas e um dos países que apresentam os piores indicadores de desenvolvimento humano do planeta.

Criatividade, alegria, talento, e disposição para empreender são qualidades que não faltam ao brasileiro. Com esse caldo seria possível fazer um molho substancioso. Não se faz. Informações da Organização Mundial do Comércio (OMC) dão conta de que o faturamento das indústrias criativas no mercado internacional duplicou nos primeiros três anos do século XXI. Segundo os cálculos dos especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), a economia criativa, que envolve setores tão díspares como teatro, artesanato, televisão, cinema, publicidade e desenvolvimento de programas de computador, é responsável por 7% das riquezas produzidas no mundo. Como cresce rapidamente, logo chegará aos 10%. Essa é uma média estatística, e esconde disparidades.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), apenas três países, o Reino Unido, os Estados Unidos e a China, produzem 40% dos bens culturais negociados no planeta – entre eles livros, CDs, filmes, videogames e esculturas. As vendas da América Latina e da África, somadas, não chegam a 4%. Cinco sextos da população mundial – uma multidão de um bilhão de pessoas – vivem em países em desenvolvimento ou absolutamente pobres, e não conseguem aproveitar as oportunidades que se apresentam. No Brasil, o PIB Cultural contribui com cerca de 1% da riqueza nacional. Pelos cálculos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a América Latina deixa de ganhar 500 milhões de dólares por ano em direitos autorais. Ou seja, os países emergentes ainda não conseguiram potencializar a cultura para gerar renda e empregos.

Um professor argentino, diretor do programa de estudos sobre cultura urbana na Universidade Autônoma Metropolitana do México, Néstor Canclini, coleciona informações interessantes sobre o poder da indústria criativa dos países ricos, e a absoluta ignorância das pessoas acerca da riqueza cultural alheia. Algumas delas são as seguintes. A indústria audiovisual é a maior exportadora dos Estados Unidos. Fatura 60 bilhões de dólares por ano. Todos os brasileiros, trabalhando o ano inteiro nos mais variados setores da economia, conseguem produzir apenas dez vezes mais do que essa pontinha da indústria americana. Desde a década de 1990, seis empresas transnacionais tomaram conta de 96% do mercado mundial de música. Compraram pequenas gravadoras e editoras em países latino-americanos, africanos e asiáticos. No que se refere ao cinema a situação é ainda mais chocante. Mais de 90% das telas norte-americanas só exibem filmes feitos no próprio país. O americano comum, portanto, não conhece o que se faz no estrangeiro. E o que se produz, na verdade, é pouco – 85% dos filmes exibidos em todo o planeta brotam de Hollywood. Mesmo países europeus como França e Itália, que no passado foram reconhecidos pela qualidade de suas fitas, andam lutando para se manter à tona.

Há alguns anos Inglaterra, Canadá, Austrália e França, entre outros, descobriram que, na era do conhecimento, quanto mais diversificada uma sociedade, mais rica ela pode ser. Na Inglaterra, a indústria cultural é mesmo uma indústria, montada para criar empregos e promover o crescimento econômico. Na França existe uma preocupação diferente. Fala-se em economia cultural e em sua importância para a redução das desigualdades sociais e para o fortalecimento da identidade nacional. Ali, o departamento de pesquisas do Ministério da Cultura foi criado em 1959. Observa de perto todos os setores da vida cultural do país para instruir decisões e apontar caminhos para a solução dos problemas detectados. Os conhecimentos acumulados em quase meio século estão organizados por áreas: a disponibilidade de financiamento, a economia da cultura; as estatísticas; e estudos sobre o comportamento dos produtores e dos consumidores de bens criativos. Os ingleses perceberam cedo que num ambiente globalizado, em que os produtos tendem a se tornar commodities, a diferenciação é fundamental. Isso mais de duas décadas após a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) ter estabelecido que os anos 1980 seriam dedicados ao desenvolvimento cultural.

A causa vem sendo abraçada por organismos internacionais. Em 2002 o pessoal da Unesco parece ter descoberto uma maneira de sensibilizar o mundo. A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural afirma: "Frente às mudanças econômicas e tecnológicas atuais, que abrem vastas perspectivas para a criação e a inovação, deve-se prestar particular atenção à diversidade da oferta criativa, ao justo reconhecimento dos direitos dos autores e artistas, assim como ao caráter específico dos bens e serviços culturais". A declaração tratou também da liberdade de circulação de idéias, da identidade dos povos, mas o argumento econômico foi fundamental.

Na 11ª reunião da Unctad, realizada em São Paulo em 2004, abriu-se espaço para o debate sobre o papel das chamadas indústrias da criatividade no desenvolvimento. O resultado foi a proposta de criação de um Observatório Internacional para o setor, com o objetivo de apoiar os formuladores de políticas públicas e outros interessados, encorajando a capacitação, a valorização da diversidade cultural e a construção de redes de distribuição e comércio. Os movimentos, desde então, não pararam. Em abril de 2005 ocorreu em Salvador, na Bahia, um Fórum Internacional. Ali foi lançada a pedra fundamental do Centro Internacional das Indústrias Criativas, onde se concentrarão a pesquisa e os dados sobre o setor em todo o mundo. Outro centro foi criado na Ásia, onde ocorreu encontro semelhante. A cidade de Xangai ficou encarregada de promover uma exposição internacional em 2007. Com essa perspectiva, e sabendo que hospedarão os Jogos Olímpicos em 2010, os chineses criaram uma universidade para formar gente capaz de pensar em políticas de maneira ampla e integrada, envolvendo economia, finanças, educação, arte e questões sociais. Xangai pretende ser a capital cultural do mundo.

No relatório sobre desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) de 2004, há uma citação de uma frase do arcebispo sul-africano Desmond Tutu: "O desenvolvimento humano diz respeito, antes de tudo, a dar condições às pessoas para decidirem o tipo de vida que querem ter – e provê-las das ferramentas e oportunidades para que façam suas escolhas". Aí está o desafio do momento.


* Eliana Giannella Simonetti é jornalista e historiadora. O texto é uma compilação resumida de reportagens publicadas na revista Desafios do Desenvolvimento, do Ipea e do Pnud (www.desafios.org.br).

Economia Criativa - dos bastidores ao protagonismo

Economia Criativa – dos bastidores ao protagonismo
Ana Carla Fonseca Reis
Cultura e Mercado, 28/05/2007

Saindo dos bastidores das discussões restritas à Europa, aos Estados Unidos e à Oceania, a economia criativa finalmente vem tomando lugar de atriz oficial nos debates e conferências brasileiros. A contribuir para esse momento, agentes públicos, privados e instituições discutem o papel da cultura e da criatividade como base de desenvolvimento. No final de maio, mais uma ação emblemática jogou luz sobre essa discussão: a convite da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, Lord Chris Smith, ex-Secretário de Cultura de Tony Blair, contou sua experiência na implantação e desenvolvimento do programa de economia criativa que catapultou os indicadores econômicos e sociais do Reino Unido.

Alguns comentários foram particularmente dignos de nota. Para começar, uma obviedade recorrentemente negligenciada: que um programa de economia criativa, seja ele definido como for, só pode de fato alçar vôo quando envolve a) as diversas pastas do governo em prol de um objetivo comum e b) estabelece um diálogo efetivo entre o governo e representantes dos setores privados que compõem a economia criativa daquele país. No caso do Reino Unido, são treze setores (ou “indústrias”), envolvendo todas as indústrias culturais e outros setores capazes de gerar direitos de propriedade intelectual, como software, propaganda, moda, design e arquitetura. Todos esses interlocutores integraram uma força-tarefa, capitaneada pelo Ex-Secretário da Cultura, tendo objetivos compartilhados e cuja prioridade era garantida pelos números de um mapeamento que mostrava a importância desse grupo de setores para a geração de emprego e renda no país. Quatro condições, portanto, fizeram-se necessárias para garantir os propalados 7% do PIB que a economia criativa traz ao Reino Unido: conscientização de seu potencial; números que reforçavam essa percepção; políticas integradas e clareza de conceitos.

Quando lhe perguntei quais desafios espreitam a economia criativa britânica para que esta se converta no pólo criativo mundial que se propõe a ser, Lord Smith enfatizou dois, começando pelos direitos de propriedade intelectual (referindo-se não apenas ao controle da pirataria, mas à necessidade de adaptação de indústrias, como a musical, ao paradigma digital). O outro receio? Complacência. Sim, porque o fato de terem uma economia criativa pujante, hoje, não lhes assegura a preponderância no futuro.

Que o diga a Comunidade Européia, esse bloco que completou apenas 50 anos em março – já por si um quebra-cabeças de 27 peças, cada uma defendendo e tratando cultura e criatividade de forma distinta. Estudo publicado pela Comissão Européia ao final do ano passado evidenciou enorme disparidade no foco cultural de cada país – o que não só é natural, como provavelmente saudável. Enquanto a Dinamarca fala de “economia da cultura e da experiência”, a Holanda refere-se à “economia criativa” e a Lituânia disserta sobre as “indústrias de direitos autorais”. Uma verdadeira miscelânia, cujo entendimento é fundamental, a julgar pelo texto do relatório: “O estabelecimento da Europa como um pólo criativo é essencial para a competitividade da União (Européia)... deveria colocar cultura e criação no cerne do projeto europeu para beneficiar a economia européia e seu crescimento.”

Nos Estados Unidos, causou furor o Índice de Criatividade proposto por Richard Florida, em 2003, que contempla três sub-índices: talento (incluindo o número de pesquisadores, de universitários e de profissionais atuantes em setores criativos), tecnologia (voltado à inovação e à pesquisa) e tolerância (como a disposição a rever valores tradicionais e atitudes frente às minorias). Elocubrando sobre a aplicação desse modelo no Brasil, sorrimos diante da tolerância, franzimos o cenho no quesito talento (temos mestres de ofícios maravilhosos, mas uma qualidade de ensino que degringola continuamente) e nos desesperamos frente à tecnologia.
E por que tanta ênfase na tecnologia, mesmo quando se fala de economia da cultura? Em primeiro lugar, porque várias tecnologias (como as que possibilitam a convergência digital e a convergência de mídias, transformando o celular em uma potencial ilha de edição) quebram a concentração dos canais tradicionais de distribuição de bens culturais. Se antes dependíamos das gravadoras para ouvir a música produzida no mundo, hoje carregamos e baixamos arquivos, diretamente do computador do compositor tailandês ou marroquino que as criou. Mais do que uma tecnologia, muda-se o paradigma, inclusive mental, de hierárquico para disperso, de passivo espectador para ativo garimpeiro. E volta-se à questão da exclusão digital levar à exclusão cultural.


Em segundo lugar, criatividade não é compartimentalizada, nós é que tendemos a etiquetá-la. Ser criativo é enxergar o mundo de outra forma, unir pontos aparentemente desconexos, criar soluções novas para problemas antigos e, muitas vezes, para problemas que nem sabemos existir, seja no dia-a-dia, no laboratório ou no atelier. Consta que inovação seja criatividade aplicada à prática. Nesses encontros, arte e ciência são irmãs gêmeas. A fotografia e os exames por imagem que o digam. Ou, ainda, aquela cadeira maravilhosa dos Irmãos Campana, protegida por direitos de desenho industrial. Ou, quem sabe, aquele anel de desenho estupendo, vendido nas grandes cadeias de joalherias, mas cuja lapidação é obrigatoriamente individual. E o que dizer dos ofícios? Não resisto a considerar um cirurgião plástico um artista plástico, assim como fico absorta diante das esculturas em forma de dente dos protéticos.

Criatividade e direito à criatividade, duas questões diferentes. Esbanjamos a primeira, apanhamos para fomentar a segunda. Ou, nas palavras do saudoso Celso Furtado, em seu delicioso livro Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise, “Todos os povos lutam para ter acesso ao patrimônio cultural comum da humanidade, o qual se enriquece permanentemente. Resta saber quais serão os povos que continuarão a contribuir para esse enriquecimento e quais são aqueles que serão relegados ao papel passivo de simples consumidores de bens culturais adquiridos nos mercados. Ter ou não direito à criatividade, eis a questão.”

Administradora Pública pela FGV, Economista e Mestre em Administração pela USP, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela USP, Ana Carla é Fundadora da empresa “Garimpo de Soluções – economia, cultura e desenvolvimento”, Consultora em economia criativa para a ONU, Curadora da conferência britânica “Creative Clusters”, Diretora de Economia da Cultura do Instituto Pensarte, Coordenadora do curso "Gestão de Políticas e Produtos Culturais" da Faculdade São Luís. Co-autora de “Teorias de Gestão – de Taylor a nossos dias” e autora de “Marketing Cultural e Financiamento da Cultura” e “Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável - o caleidoscópio da Cultura".